A vanguarda é sempre paulista...

Saindo de uma gripe que me derrubou a semana inteira estou aqui ouvindo meus amigos paulistas Gigi Trujillo e Moisés Santana.

Voltei a uma questão que já andei pensando em escrever algo. Já reparou que a vanguarda sempre vem de São Paulo? Desde a tropicália, passando pela Lira paulistana até hoje. Parece que a grande cidade tem um carinho maior com quem é diferente e inova... mesmo assim é preciso coragem.

Dessa vez não vou deixar passar essa pauta e começar a colocar essas idéias em um papel qualquer...



 Escrito por Beto Feitosa às 8h53 AM [   ] [ envie esta mensagem ]




É roque enrrow, sô!

Estão todos (incluindo eu na matéria de hoje de Ziriguidum) falando dos 50 anos de rock and roll (sobre Mariana Davies, leia e ouça aqui). Mas hoje, dia 13 de julho, também é dia do compositor de música sertaneja.

O som do sertão hoje em dia anda meio mal visto nas cidades. Há duas décadas a indústria começou a vestir bolerões açucarados com vozes em terça e dizer que é música sertaneja. Eu prefiro ficar com os originais, Inezita Barroso, Cascatinha e Inhana, Tonico e Tinoco só para citar pouquíssimos... são tantas duplas, tantos artistas talentosos e importantes que nem seria justo começar a citar alguns. Também não tenho conhecimento suficiente pra falar sobre eles e contar uma historinha, infelizmente.

Mas indico um trabalho ótimo para quem quiser começar a se aventurar nesse ramo: o Duo Canta Viola homenageou Cascatinha e Inhana com o belíssimo CD Colcha de retalhos no ano passado. (leia aqui | compre aqui). Outro CD imperdível com verdadeiros clássicos sertanejos é das irmãs Tetê e Alzira Espíndola, se chama Inhaí (compre aqui). Quem só conhece Tetê de Escrito nas estrelas não sabe o que está perdendo e pode se impressionar com o trabalho dela, que junta vanguarda paulistana e música sertaneja.

Quem também acha que a música do homem do campo é feita em estúdio cheia de teclados e refrões para pegar nas FMs vale a pena pesquisar e conhecer a verdadeira música feita no interior do país.

Vou terminar com uma letra genial de Itamar Assumpção falando exatamente sobre isso. Se chama Onda sertaneja:

Essa onda sertaneja eu também quero pegar
Já que tem que ser que seja pra ser cantor popular
Pra cantar pra todo mundo sem nem sair do lugar
Vou morar no rancho fundo
E se Ari Barroso ou Lamartine Babo deixar

Essa onda sertaneja eu também quero pegar
Já que tem que ser que seja pra ser cantor popular
Pena Branca e Xavantinho Cascatinha mais Inhana
O Brasil pra mim tá pouco, minha moda vou exportar

Essa onda sertaneja eu também quero pegar
Já que tem que ser que seja pra ser cantor popular
Ser Canário e Passarinho, Liu e Léo, Lua e Luar
Ser cover do Teixeirinha pra lá no sul estourar

Essa onda sertaneja eu também quero pegar
Já que tem que ser que seja pra ser cantor popular
Vou juntar prima com terça, Inezita e Itamar
Quem sabe a gente acontece como cantor popular

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Viva o rock and roll, mas também viva (e ouça) os cantores do sertão.



 Escrito por Beto Feitosa às 9h03 AM [   ] [ envie esta mensagem ]




Oração para Canhoto

Recebi do leitor, jornalista e escritor pernambucano Urariano Mota, um texto comovido sobre a situação do músico Canhoto da Paraíba. Com permissão dele e da família do artista, reproduzo aqui na íntegra:

ORAÇÃO  POR  CHICO SOARES, CANHOTO  DA  PARAÍBA

 

Urariano  Mota

 

 

(Fecho os olhos, para melhor falar, abro-os e ergo-os para um céu deserto de tudo, até da esperança. E por isto mesmo, por mais sem razão e sem nexo, o peito que desejaria gritar, fala e balbucia baixinho, ainda que seja inútil o afã de encontrar uma razão para o que vejo.)

 

Minha Nossa Senhora do Perpétuo Socorro mostrai  que sois verdadeiramente mãe de todos artistas caídos em desgraça na terra.

 

Existe um homem que é grande no tocar, existe um sereno e augusto artista que é largo e alto de coração, existe um violonista de nome Francisco Soares de Araújo, que a simplificação da gente achou por bem chamar de Canhoto da Paraíba.

 

Minha Nossa Senhora, esta súplica seria inútil se tivésseis a graça de ouvi-lo, um só minuto. Então saberíeis como ele transporta o céu para a brutalidade e para a angústia de todos animais que somos. Então sorriríeis com ele, e como ele, porque irradiante e empática e comungante sempre foi a sua ventura no tocar. Esta prece poderia ser tão-só e somente um insulto à dignidade de Francisco Soares de Araújo, se Canhoto da Paraíba não se encontrasse no estado e no ânimo em que se encontra. Sabei, erguida e nobre Senhora dos sonhos dos desesperados, sabei que Canhoto se acha numa cadeira de rodas, com a voz falha, e todo lado esquerdo do corpo, e toda a mão esquerda, cruel e certeira maldição, paralisada. (É assim que a Providência castiga os bons da alma? Se um homem canta pela mão esquerda, será ela a ferida? Se um artista se expande pela voz, será na garganta o seu câncer?) Sabei, Senhora, que Canhoto mal falando, a tropeçar nas sílabas, como uma grande criança que cresceu para ser coroada por uma cadeira de rodas, sabei, Senhora, que Canhoto ainda assim sorri. Com quase o mesmo sorriso com que o vi um dia, à luz do dia, ao meio-dia na Avenida Guararapes. Com este assim:

 

O guitarrista Pedro Soler, aquele mesmo guitarrista flamenco a quem Miguel Angel Astúrias declarou, “os teus dedos, Soler, são os cinco sentidos da guitarra”, este Pedro um dia esteve no Recife, em 1975. E disse, “Canhoto da Paraíba é um dos três grandes guitarristas do mundo”. E por ser lembrado desta referência, ao ser encontrado na Guararapes, Canhoto assim respondeu, com o mesmo sorriso de menino bom, que agora insiste na paralisia em que se encontra, com o peito bom de menino que recebe pedras e se alarga, para abraçar as pedras como abraça facas e elogios:

 

- Num foi? Eu disse a ele, “Tu é doido, Soler?”

 

E como eu lhe repetisse o elogio de vexame, e para não ficar com a cara gorda e limpa exposta à luz, como uma criança que se descobre nua em rua de adultos, Canhoto assim respondeu à consagração:

 

- Tu quer um confeitinho? Toma um de menta. É bom, rapaz.

 Escrito por Beto Feitosa às 10h26 AM [   ] [ envie esta mensagem ]




Oração para Canhoto

(continuação)

E desta maneira a receber caramelos, a vez de se encabular foi minha. Agora sinto, agora percebo que na pessoa de Canhoto aura nenhuma poderia ser posta, porque o seu maior elogio era a sua própria pessoa: Canhoto, a sorrir, a tocar. E digo isto, Senhora, quase que em estado de raiva e convulsão, por entre estremeços. Porque o vejo agora e me vem num assalto: Não é assim que se trata um homem. Não é assim que se destrói um artista. Não é assim que se faz reduzir e insultar a memória da gente. Este a quem encontro em Maranguape I, periferia do Recife, para lá de Olinda, é o mesmo homem que era convidado como estrela máxima de saraus, shows e banquetes? Este, na obscuridade de sua sala, olhando um disco na parede, como um mamute, como um gordo pacífico sem fala, é o mesmo genial violonista de Pisando em Brasa? Algo procuro, busco uma razão, e para não ser tão cru e cruel como a Providência, que assim pune os nossos grandes, prefiro balbuciar essas desrazões:

 

Imaculada Virgem e Mãe minha, Maria Santíssima, a vós que sois a  Mãe de meu Salvador, Rainha do Céu, Advogada, esperança e refúgio dos pecadores, recorro:  

 

Canhoto da Paraíba tem a perna, as articulações sacrificadas, porque não dispõe de recursos para fazer uma... terapia. Não essa terapia que ora faço, da súplica do milagre, da clemência aos céus, mas a mais elementar, humana, elementar, uma fisioterapia. Por isto, por falta desta, já reclama, reclama, não, que ele sequer se queixa, por isto já se refere a dormência nas pernas, porque passa o dia entre a cadeira e a cama. Mas disto ele não se queixa – está em repouso, não é? Sabei, Senhora, que Canhoto é homem de grande resignação. Minto. Menti para ficar dentro da forma beatífica do requerimento a Seus poderes. O que toda a gente toma por resignação (digo-o baixinho, bem baixinho, como um chorinho solado, murmurando) o que toda gente toma por resignação é uma imensa generosidade. Canhoto sempre foi um deus de fertilidade, tocava e distribuía seus dons com louca e desmedida prodigalidade, como se os seus recursos, porque lhe chegavam, fossem inesgotáveis. Depois do derrame, do AVC, esses recursos subitamente se esgotaram. Mas disso ele não se deu conta. É um Buda que vive e se alimenta dos restos e da sombra do seu nirvana. Daí que não se queixa, daí que de nada reclama. Canhoto espera que de uma hora para outra seus dedos esquerdos voltem a se articular como antes, e aí, que bom que será!  Todas as portas voltar-se-ão para ele, todas as graças, todos os violões, até mesmo a Santa, que acorrerá para ouvi-lo sem necessidade de invocação.     

 

Nós, que não somos Canhoto, é que percebemos que o Rei perdeu o seu cetro, seu poder, seu trono. Nós, que o vemos transparente pela bonomia de sua fala de criança, é que sabemos: à causa “natural” da isquemia, da idade dos seus 76 anos, soma-se a natural organização do mundo. Canhoto vive de uma modesta aposentadoria que não lhe dá margem para um tratamento de luxo, e o luxo, Imaculada, é uma fisioterapia. Sabei, Santa sobre as santas, que ele recebe aposentadoria por suas atividades de burocrata, de funcionário do SESI, por ser Francisco Soares de Araújo. Da sua razão de ser  - da sua razão de viver, da sua razão de morrer – do gênio de ser Canhoto da Paraíba ... nada, nada, nada. Assim não são os bens espirituais? Nada, nada, nada. Dos políticos, dos deputados, senadores, governador do  estado, prefeitos, nada, nada, e minto. Minto, minha Santa: destes tem recebido uma segura e intransponível distância. Ou melhor, nesta altura, fui injusto. Agora em junho deste  ano, o nosso violonista foi a Brasília, para inaugurar, com chave de ouro, o Projeto Pixinguinha. Ali, Canhoto recebeu um aperto de mão do Presidente.

 

Por isto, minha Santa, por isto, Imaculada, já que sois tão poderosa diante de Deus, fulminai para sempre e eternamente com vossos raios a insensibilidade  humana. Porque existe um homem, que um dia foi Canhoto da Paraíba, que  jaz numa cadeira de rodas, em Maranguape I, Paulista. Sem se queixar e a sorrir, e por assim estar, a machucar o coração da gente.        



 Escrito por Beto Feitosa às 10h26 AM [   ] [ envie esta mensagem ]




E a música?

As notícias musicais do final de semana foram sobre o nascimento do filho de Maria Rita, o estado de saúde do vocalista do LS Jack e a briga do Chorão com o Marcelo Camelo. E cadê a música?

Que bom que Maria Rita é mãe. Que essa criança tenha a mesma boa educação que ela teve, acesso a boa cultura e informação útil. Também desejo que Marcos Menna se recupere logo e que a verdade seja descoberta e discutida. Afinal de contas, será que a lipoaspiração é uma cirurgia tão boba quanto dizem o tempo todo? Será que a vaidade vale o risco da saúde? Que o vocalista do LS Jack esteja logo aí com a gente para participar dessa discussão.

Já o ringue Charlie Brown Jr X Los Hermanos foi um espetáculo totalmente dispensável e lamentável. A boa educação diz que não se quebra o nariz de ninguém. Chorão, vocalista do Charlie Brown, trocou os argumentos pela agressão física. Será que as brigas de pit boys cariocas chegaram agora ao meio artístico? Na minha visão um artista é uma pessoa que tem um pouco mais de cultura, formação, boa educação... ou pelo menos deveria. Estamos voltando a idade média? Porrada na cara resolve alguma coisa?

Vamos parar para pensar e reavaliar toda essa (falta de) cultura que está aí. Se as crianças fossem desde cedo educadas com conteúdo, princípios e argumentos a gente não estaria vivendo esse período de brigas. Será que vamos voltar a Idade da pedra? Daqui a pouco os homens vão estar por aí querendo arrastar as mulheres pelo cabelo...

Em tempos de internet, TV a cabo, celular... a quantidade de informação que a gente tem acesso é incrível. Só falta saber ser aplicada, O problema parece mesmo de base, de criação.

Continuo defendendo a tese de que acesso a cultura, boa música, bom teatro, bom cinema pode reverter essa situação. Vamos largar de lado a preguiça de pensar e levantar uma poeira com mais conteúdo. Vamos fechar essa arena de luta e abrir uma mais evoluída, com cultura para todos e argumentos para quando discordamos. Porrada em pleno 2004 não deveria resolver nada.

Acima de tudo, vamos falar sobre música. O trabalho dos verdadeiros artistas são mais importantes para o público do que fuxicos de vizinhos. Marketing de fofoca é para quem não tem conteúdo e não tem o que dizer.



 Escrito por Beto Feitosa às 9h38 AM [   ] [ envie esta mensagem ]





 
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