A arte como controle do caos
Mais um mendigo espancado e humilhado, dessa vez os cariocas imitam a barbárie paulista em mais uma vergonha que é nacional.
Fico pensando que essas atitudes tão pequenas, mesquinhas e cruéis são ainda mais assustadoras quando a gente se dá conta de que são crimes cometidos sem nenhum motivo. Não há defesa, não há assalto, não há seqüestro. Existe apenas o desrespeito e o pouco caso com o outro, com o diferente.
A indústria de entretenimento massifica filmes, programas de TV e – para chegar no nosso caso – músicas que não dão espaço para reflexão. Criou-se toda uma população com preguiça de pensar, de entender e procurar o novo. Basta ver o sucesso que fazem discos de releituras fáceis e rápidas de repertório já conhecido. Grande parte dos consumidores está comprando entretenimento rápido, para ouvir sem pensar e formar opinião, “nesse disco só tem as melhores” é um argumento corrente. Carrego há alguns meses a vergonha de saber que a Niterói – minha cidade – vaiou o gênio João Donato quando se apresentava ao lado de Emílio Santiago. O povo queria ouvir as aquarelas e sambas de Emílio e não aceitou a bossa sofisticada. Niterói vaiou João Donato, um artista respeitado em todo o mundo, um crime imperdoável.
Pessoas com preguiça de pensar também agem da mesma maneira, cometem crimes por nada, apenas pela crueldade. Divertem-se vendo um índio queimar na rua, acham que fazem um serviço matando de forma violenta e cruel mendigos e até fazem “uma brincadeira” humilhando um outro. Para que?
Como trabalho com música, passo meus dias ouvindo ótimos trabalhos, gente nova, sons diferentes, sempre defendi uma política cultural como forma de educar, ensinar, civilizar e socializar. Tem muita coisa boa sendo feita por aí, muitos artistas trazendo novidades e propondo novos sons. Mas cadê o público, que só consome o que vê no Faustão ou ouve nas rádios? Se esse mesmo público tivesse oportunidade de conhecer e dados para entender, pensar, avaliar, cenas como essa poderiam ser abolidas do caos urbano.
Essa triste realidade não é do Rio, não é de São Paulo e nem do Brasil; é mundial. Pessoas matam em nome de Deus, mas que Deus quer a guerra entre os povos?
Se esses marginais que atacam pessoas na rua tivessem alguma informação na cabeça e conseguissem pensar, avaliar e entender, uma vergonha dessas não estaria acontecendo bem do nosso lado. “A gente não quer só comida. A gente quer comida, diversão e arte”.
Me lembra também o trecho de uma letra de Gilberto Gil que Leila Pinheiro lia com força poética em um de seus shows:
“o povo sabe o que quer mas o povo também quer o que não sabe o povo sabe o que quer mas o povo também quer o que não sabe
o que não sabe, o que não saberia porque morreria sem poder provar como provar a pilha com a ponta da língua receber o choque elétrico e saber poder matar a fome é pra quem come, é claro não apenas pra quem vê comer assim feito a criança pobre esfarrapada come feijoada que vê na tv
essa criança quer o que não come quer o que não sabe, quer poder viver assim como viveu um Galileu, um Newton e outros tantos muitos pais do amanhã esses que provam que a terra é redonda e a gravidade é a simples queda da maçã que dão ao povo os frutos da ciência sabores sem os quais a vida é vã
o povo sabe o que quer mas o povo também quer o que não sabe o povo sabe o que quer mas o povo também quer o que não sabe”
Escrito por Beto Feitosa às 8h38 PM
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