Um abraço no João

Artistas e público andam numa preguiça enorme de cavar repertório. Então é um tal de cantar as mesmas músicas conhecidas, que até dá sono. Sem o merecido alarde da mídia, ontem estreou no Rio o show Beija-flor negro, com João Pinheiro, que mostrou que não faz parte dessa turma do cochilo.
Prestes a lançar um CD apenas com músicas de Sade, João estava com coceira de montar um espetáculo de carreira, com seu repertório e passeando pelo dos outros. Quem conhece as músicas dele sabe que tem composições bacanas e contagiantes (Galllllllll!). Mas também tem um faro legal e disposição na hora de pesquisar repertório alheio.
Não resisti. Cheguei em casa e fui procurar a deliciosa música Samba de Los Angeles. O programa do show dava a pista que era de Gilberto Gil. Mas onde ele pescou essa? Pesquisei no site de Gil e, em cinco minutos, descobri que é do LP Nightingale, de 1978. Até peguei o CD original para comparar as versões. Mas o ponto não é esse. Se eu demorei apenas cinco minutos para encontrar informações sobre a música que João Pinheiro cantou, a pesquisa dele foi muito maior. E, inteligente, acertou na mosca fugindo do óbvio.
Com o programa em mãos ainda tenho outros nomes a procurar. Quem é Crispim, autor da irresistível Nossa Senhora do Tim? João também pescou a obra de compositores que estão por aí como Fred Martins, Suely Mesquita e Selma Gillet. Mas, cadê que foi no convencional? Nada. Mais um ponto!
O show transcorre só com novidades. Uma citação de Cais aqui, uma releitura de Muito romântico e uma arrasadora de Vaca profana. Mas João Pinheiro traz a novidade. Prende atenção do público pela qualidade do repertório e por sua presença de palco.
Depois de Sade, que venha logo o registro desse repertório.
Escrito por Beto Feitosa às 3h10 PM
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